sexta-feira, 17 de maio de 2019

No Meio Tempo

O Mundial de Clubes FIFA de 2012 é sem nenhuma dúvida uma das passagens mais marcantes da gloriosa história do alvinegro do Parque São Jorge. Milhares de Corinthianos fiéis cruzaram continentes para acompanhar o amor de sua vida e colocar o Sport Club Corinthians Paulista no seu lugar de direito: o topo do mundo.


As narrativas dos irmãos Corinthianos que tiveram o privilégio de participar da invasão Corinthiana ao Japão e embarcar nessa viagem são emocionantes e deixam qualquer Fiel apaixonado arrepiado. Tenho uma que aconteceu comigo e guardo no coração com enorme carinho.


Na grande final em Yokohama nos sentamos a direita da parte central do estádio. Éramos todos Corinthianos e ficava visível nossa agitação nos momentos que antecediam o início do jogo. E imediatamente ao nosso lado no centro estavam os japoneses, todos sentados de forma serena e organizada.


Os hábitos dos torcedores japoneses no estádio são bastante diferentes dos nossos, próprios de sua cultura e de seus costumes. Estes vão ao Futebol da mesma forma que vão ao teatro. Estavam elegantes sentados de sobretudo, em silêncio e observando todos as nuances do espetáculo.


Infelizmente poucos conheciam o Corinthians. Estavam mais familiarizados ao Chelsea, nosso adversário na final. O campeonato inglês e a champions league tem maior visibilidade que o campeonato brasileiro. Haviam passado na loja oficial do evento e compraram um cachecol da agremiação que iriam torcer. Todos eles com as cores do adversário e nós ostentando o amor alvinegro.


Na sequência dos acontecimentos, quando o time entrou em campo o lado alvinegro veio abaixo. A Fiel fazia um barulho ensurdecedor. Não parou de cantar e empurrar um só segundo. Nem o bom jogo do Chelsea no primeiro tempo mudou o tom. Na adversidade a torcida ficava ainda mais forte, seguindo a tradição Corinthiana. Foram 45 minutos do 12° jogador ecoando em todo o campo.


Isto contrastava muito com parte central dos japoneses que haviam escolhido torcer para a agremiação de azul. Em silêncio não paravam de olhar para nós. Pareciam horrorizados com nossa forma de torcer. No final do primeiro tempo, todos se levantaram e saíram. Confesso que fiquei chateado e magoado, mesmo com a nossa supremacia vitoriosa.


Os Corinthianos fomos muito bem tratados no Japão. Nos acolheram como poucas vezes vi em minha viagens. Receberam a Fiel de braços abertos. Daí me senti muito mal com a possibilidade de ofender esse povo. É próprio da nossa cultura, de nossa forma de extravasar e torcer, mas estes não mereciam. Haviam ganho nosso carinho e respeito.


Eis que faltando pouco pra começar o segundo tempo tive uma das maiores surpresas de minha vida: o japoneses não haviam se retirado. Tinham jogado fora os cachecóis azuis do Chelsea, ido na loja oficial do evento e comprado cachecóis alvinegros do Corinthians. Ficaram maravilhados com a nossa forma de torcer, viver o jogo e queriam participar junto a nós desse momento memorável.


Nós convertemos os japoneses no meio tempo. Fizeram questão de vir nos cumprimentar, com seu usual gesto distante de reverência e respeito, para tirarem diversas fotos conosco, dando aquela furtiva risada junto a um "Vai Curintcha". Um momento que não tenho como tirar do pensamento.


A vitória do Corinthians consagrou nosso amor e devoção, mas além disso deixou a esse povo tão doce e humano um pouco do que somos, do que sentimos e do que somos feitos. Plantou um pouco de Corinthianismo no coração do Oriente. Um meio tempo que vale uma vida.


Saudações alvinegras e saravá São Jorge Fiel! Vai Corinthians!

O Exemplo

O Doutor Osmar de Oliveira era Corinthiano fanático. Além de médico era jornalista, comentarista e locutor esportivo. Sempre foi um contumaz defensor do seu time "de alma", embora fizesse as análises mais sóbrias e adequadas sobre futebol nos diversos programas de debate esportivo que participava. Fiz questão de frisar porque o mesmo sempre citava que não era Corinthiano de coração, pois este um dia pára, era Corinthiano de alma, porque esta é eterna.


Certa vez contou um lindo episódio sobre a relação com seu pai, de quem herdara o amor inabalável pelo Corinthians. Quando criança havia feito uma travessura normal da idade, aquela velha brincadeira de tocar a campainha da vizinhança e sair correndo. Seu pai ao presenciar isso o chamou e apenas disse uma frase:

- O Cláudio não faria isso.


O tal Cláudio era nada mais nada menos que Cláudio Christóvam de Pinho, apelidado "o gerente". Meia de raríssima qualidade, é o maior artilheiro da história do Corinthians com 305 gols. Porém não foi citado pelo pai pela seu legado futebolístico, mas sim porque era reconhecido pela sua retidão de caráter, pela honestidade, pelas virtudes e enorme respeito que conquistou de todos. Um exemplo de cidadão e ser humano.


Contava Doutor Osmar, com os olhos marejados, que aquela criança nunca mais fez aquela travessura. Ele queria ser igual ao Cláudio, seu ídolo. Ainda declamou o quanto o Corinthians, através dos exemplos foi responsável pela formação de seu caráter e o quanto isso perpasssou todos os momentos de sua trajetória e da relação com seu amado pai. Somente quem é Corinthiano entende a profundidade do que o Corinthians significa e o importância em cada momento de nossas vidas.


Reflito que muitas vezes os atletas esquecem que suas atitudes influenciam as pessoas. Não percebem a enorme importância que tem além do jogo de futebol. Não se dão conta da dimensão de suas ações nem dos exemplos que dão dentro e fora de campo. Uma enorme responsabilidade, pois muda a vida das pessoas.


Fica aqui minha homenagem ao Cláudio e ao Doutor Osmar, que com seus exemplos ajudaram na minha formação. Colaboraram para que me tornasse o Corinthiano fanático que sou. Assim como aquele pequeno Osmar, o Corinthians moldou minha trajetória e esteve presente nos melhores momentos da minha vida. O nosso Corinthianismo é resultado do exemplo, de todas inspirantes narrativas que estiveram presentes em toda nossa gloriosa história.


Saudações Alvinegras e Saravá São Jorge Fiel! Vai Corinthians!

Corinthiano é com TH

O Corinthians é sem dúvida alguma o nome de clube mais bonito do mundo. Foge do lugar comum das municipalidades e dos apelidos. Os honrosos fundadores o escolheram porque na época excursionava no Brasil um reconhecido esquadrão inglês de Futebol, o Corinthian, que encantava a todos por sua classe e categoria.


O nome do Corinthian inglês se deve a um dos povos peregrinados por Paulo de Tarso, que aparece na Bíblia nas famosas epístolas. São os habitantes da cidade grega de Corinto, os Coríntios. Vale lembrar aqui uma linda passagem da epístola de Paulo aos Coríntios:


"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine."


Sendo assim, Corinthians nem é uma palavra com origem na língua portuguesa e sim, uma tradução de Coríntios para o inglês. Na nossa língua não temos o dígrafo th, mas respeitou-se a grafia dos nomes próprios.


Durante muito tempo erroneamente foi escrito "corintiano" sem th, pois seguindo as normas ortográficas a palavra derivada do substantivo é um adjetivo e este perderia a letra h. Acontece com o belíssimo estado da Bahia, que tem h, mas como nos seus habitantes, os baianos, já é escrito sem h.


Porém a palavra correta Corinthiano com th não é um adjetivo, é um neologismo popular, que já deveria ter sido incorporada ao dicionário. Neologismo é um fenômeno linguístico que consiste na criação de uma nova palavra para designar novos conceitos. É resultado de um comportamento espontâneo próprio do humano e da língua viva.


Assim sendo o neologismo popular Corinthiano com th foi criado pela própria nação corinthiana, no seu emprego cotidiano, no seu uso espontâneo pelos torcedores, nas conversas do dia-a-dia pelas novas mídias, seguindo a grafia do nome próprio que tanto os orgulha e diferencia.


Todo Corinthiano de alma e coração, aquele verdadeiro que sente e vive, sabe que ser Corinthiano não é um adjetivo, é um estado de espírito!

Saudações Alvinegras e Saravá São Jorge Fiel! Vai Corinthians!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Um Grande Desastre

Amanhece o Domingo. Dia Mágico do Futebol. Tão ansioso, nem dormi direito. Era Dia de Corinthians e Palmeiras, o maior Clássico, o Derby. O jogo valia uma vaga na Final do Campeonato Paulista, embora este não tivesse mais o mesmo charme de outrora, a rivalidade e a História do confronto despertavam um sentimento fantástico!

Marcamos com amigos que fiz nos jogos para tomar umas cervejas e começar a resenha, o esquenta, que modo fabuloso de se confraternizar! É um clima sensacional! Um espaço livre para brincadeiras e pontos de vista, sem obrigações nem necessidades de cumprir com a lógica, só as leis do Futebol.

Cumprindo o Ritual, busco meu cunhado e vamos de carro até o Shopping Tatuapé. De lá vamos de Metrô até o nosso destino. A Arena Corinthians, o Templo Moderno do Futebol no Solo Sagrado de Itaquera! A Terra Prometida, o Maior Hospício do Mundo, a Casa da Nação Fiel! Deus sabe quantas vezes meus amigos rivais desdenharam de mim, ainda criança, por meu Time não ter um Estádio. Adjetivos jocosos e rotulações que iam desde “favelados” até “moram de favor”.

Deve ser por isso que não aceitamos passivos o apelido dado pelos rivais à nossa Arena. Este materializa todo um sentimento AntiCorinthiano. Não aceitam nosso merecido Sucesso. Querem desfazer dos nossos feitos, de nossas conquistas. Um sufixo nominal aumentativo, para se referirem com desdém, um lugar longínquo, onde ficam aqueles pobres lá. A Torcida Fiel tem o direito de escolher como quer que se chame sua casa.

Porém no Metrô é que se inicia o grande desastre. Sempre fico de pé, para dar lugar a mulheres e pessoas de mais idade. Depois disso entram no vagão alguns integrantes de uma Torcida Uniformizada do Corinthians. Faziam gritaria e algazarra. Sinceramente não vi nenhum problema. Todos sem exceção sorriram, era clima de festa. Um Carnaval fora de época, uma externalização desmedida de alegria. Deu até vontade de gritar junto.

Nesse instante os Torcedores enfileirados, saem e vão para outro vagão. Por outra porta entra um rapaz de meia idade vestindo uma camisa regata da Torcida Independente do São Paulo. Um desavisado. Fiquei gelado. Impossível o mesmo não saber o perigo que corria. As portas do Metrô se fecharam. Mas mesmo antes de relaxar um outro rapaz, que não pertencia à Torcida, vestindo uma camisa do Borússia Dortmund, colou nele e começou a fazer ameaças. Assustado ele se senta. Não adianta, o violento não desiste. O obriga a tirar a camisa e depois a rouba.

Aquilo tudo me deixou muito incomodado. O que vimos nada tinha a ver com paixão ou clubismo. Mas não pude falar nada e me lembrei de Bertold Brecht. Embora quisesse dizer muitas coisas, estava em imensa minoria e não ando armado. Fiquei calado por puro instinto de preservação. Acabara de presenciar uma enorme injustiça. No nosso País, a pessoa não tem o direito de ir vestida como quer. Uma violação clara aos seus direitos individuais.

Meu cunhado me questionou dizendo que o São Paulino estava no lugar errado. Realmente não tinha noção do perigo. Ao ouvir o argumento apontei para uma linda garota que estava ao nosso lado. Trajava vestes bastante ousadas. Me lembrei daquela moça que havia sido estuprada e que muitos nas redes sociais haviam apontado isso como ato de provocação e justificativa. É um fato da mesma natureza, nada justifica. Estamos vivendo tempos que a culpa é atribuida à vitima. Rapidamente me deu a razão.

Era um dia importante, não queria que nada o estragasse. Achei melhor esquecer. Chegamos a nosso destino para encontrar os amigos. Depois dos efusivos cumprimentos nos chega a notícia de que 8 corinthianos pertencentes a torcida Pavilhão Nove haviam sido sumariamente executados. Que tristeza. Os indícios apontavam para uma briga do tráfico de drogas, mas despertava questionamentos sobre a violência entre as Torcidas rivais. Definitivamente o clima estava muito pesado. Uma lástima.

Ao chegar a Arena só se comentava isso. Não quisemos mais ficar na porta. Preferimos entrar rápido, sem se deliciar com a batucada e os Cânticos entoados antes dos jogos. Daí novo dissabor. É inacreditável a falta de preparo e educação dos agentes da lei que fazem a revista para adentrar a Arena. Nos tratam como gado. São ríspidos sem nenhuma necessidade. Fiquei me questionando se havia feito algo de errado, tamanha a insensatez. Um senhor ao meu lado disse que pagam justos por pecadores. Afinal, aqui no Brasil é assim, não existe presunção de inocência.

Fui logo para meu lugar. Não sou supersticioso, mas o Corinthians nunca perdeu um jogo comigo naquela cadeira. Não custa absolutamente nada seguir a escrita. Mas fomos interrompidos por um bate-boca. Um senhor de avançada idade e de atrasada educação gritava com o orientador de lugares que havia deixado Dona Walkíria, a Torcedora símbolo do Timão, a mosqueteira sentou nos lugares especiais da frente. Isso sendo um direito dela e uma recomendação de quem organiza o evento. Mas nada adiantou. A razão está se perdendo nos Trópicos.

Antes de começar o jogo, um silêncio sepulcral. Em homenagem aos mortos na chacina, as Torcidas uniformizadas se sentam e nada proferem por intermináveis 8 minutos. Era um minuto de silêncio para cada vítima. Paira no ar uma profunda tristeza. O clima de festa se foi e deu lugar a um ambiente pesado e desanimador. Os jogadores em campo sentiram isso. Os demais torcedores também sentiram. Apenas não se sentia isso do lado da Torcida adversária, que não só não respeitou a homenagem, como gritava com aparente alegria e realização.

O Corinthians não perdeu o jogo. Porém foi eliminado nas cobranças de pênaltis. Um regulamento esdrúxulo feito por uma Federação à deriva, que mais está preocupada com negociatas e com a manutenção do poder, que com o Futebol. Mas todos os clubes aceitaram. Falar depois pode denotar o desrespeito ao resultado do Campo. Isso jamais. Sinceramente não causou um só arranhão à minha estima. Houve luta e garra, não houve vitória. Fico satisfeito.

Quem não fica satisfeita é a Torcida do Palmeiras. Como prova máxima de desprezo e afronta inicia uma quebradeira nos assentos da Arena ainda cheirando a nova. Voam pedaços de cadeiras para todos os lados. Sempre na direção dos lugares da torcida de seu adversário, esperando acertar e machucar alguém. A polícia nada faz, apenas assiste como se isso fosse uma conduta comum e aceitável. Realmente não sei mais em que mundo vivemos.

Enquanto todos esvaziam a Arena, um pequeno grupo da Torcida do Corinthians entoa escalofriantes versos. Gritam: “ É Inajar, é Inajar…”. Se referiam a uma briga de Torcidas rivais ocorrida na Avenida Inajar de Souza, zona Norte de São Paulo. Neste nefasto episódio, um Torcedor do Palmeiras acabou morrendo. Foram da Homenagem aos chacinados à comemoração pela morte de um adversário. Para estes a Vida não é um bem em si a ser preservado, dependendo da cor da camisa que vestem, pode ser tirada sem escrúpulos.

A verdade é que gosto das Torcidas Uniformizadas. Gosto da Festa que realizam. Gosto da Alma colocada em cada jogada, da Atmosfera que transforma o campo em um Caldeirão de emoções e de arrepiantes sentimentos. As suas coreografias são sensacionais e suas músicas são cantadas com afinco por todos. Seus desenhos são um misto de Arte Pop e de Cultura Underground. Seriam os Artífices intelectuais do Espetáculo se não fosse pela conivência com uma minoria, que realmente não entende. Não captou o que realmente significa. Não sabe viver.

A violência não é fruto do fanatismo. Sou um Corinthiano doente. Respiro e vivo intensamente minha paixão. É parte do que sou e como me construí. Mesmo assim nunca fiz uma só briga por causa de Futebol. Esse esporte só me fez fazer grandes amigos. Os debates com os rivais são espetaculares. Hoje perdemos, amanhã será nossa vez. Tudo termina em fortes abraços e sempre há assuntos para a próxima. Não há nada mais gostoso no Mundo.

Meu cunhado me alerta que estas mesmas pessoas que em grupo fazem brigas vão para suas casas e se relacionam cotidianamente com torcedores de outras agremiações. Tem amigos de outros times, mas nos momentos que se juntam agem como uma horda, destilam todo seu ódio contra um inimigo comum. Sem que isso possa ter nenhum efeito positivo em ninguém.

Vamos embora, por hoje já deu. Mas este Festival de Descalabros não termina. Na saída um carro repleto de Palmeirenses passa desferindo insultos aos torcedores eliminados que caminhavam de cabeça quente. Outros que não sabem onde estão. O farol fecha e o carro é cercado por uma série de vândalos sedentos por vingança. Conseguem fugir, mas amassados e sem nenhum vidro inteiro. É a barbárie. O horror, o horror.

Fui pra casa muito deprimido. Não com as coisas do Futebol, mas com todas estas experiência que vivenciei. Me lembrei de Renato Russo, poeta de minha geração. Deve ser essa a gente que não se respeita, acho que eu não sou daqui. Decidi escrever, para me libertar desse terrível sentimento que tanto me incomoda. Gostaria que todos lessem. Não pretendo convencer ninguém de nada, queria só que cada um meditasse a que ponto chegamos. Se esse é o mundo que queremos viver. Se trabalhamos tanto para construir isso. Um grande desastre.

sábado, 22 de outubro de 2011

Carta a um Canalha Morto

     Infelizmente você morreu. Lamento não por que tenhas morrido, já que não farás falta alguma, mas porque agora não poderei lhe falar tudo o que gostaria de ter dito. Fiquei engasgado.

     Talvez tenha sido por excesso de educação, sempre esperando o momento certo, porém,  passou o tempo. Havia muitas verdades que mereciam um cenário contundente, para externar todo o conteúdo de dramaticidade das situações, que não poderá mais ser reproduzido.

     Sempre respeitei todas as pessoas, não por seus títulos, bens ou pela idade, mas por humanidade e criação. Afinal, os canalhas também envelhecem. E consequentemente me dou conta que também morrem.

     Ficou um dissabor, uma horrenda sensação de fracasso. Queria que sentisses aquilo que senti. Que minhas palavras fossem afiadas facas que perfurassem sua alma e transformassem sua existência no pó que realmente vales.

     Sua insignificância me deixou entorpecido. Baixei a guarda e dei a chance de um energúmeno sem caráter me atingir. Seu oportunismo sorrateiro me pegou desprevenido. Abri espaço em minha vida para ser machucado por um ninguém.

     A verdade é que não se perdeu absolutamente nada. Espero sinceramente que o demônio te guarde no lugar de merecimento, seu definitivo descanso nas profundezas do fogo do inferno.

     Apenas desejo que pelo menos, toda a dor, a mágoa e o ressentimento saiam de meu coração e sejam contigo enterrados, para que enfim possa renascer.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Recomeçar

"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim." Chico Xavier
     Recomeçar não é fácil. Depois de muito percorrer temos sempre a ilusão de ter edificado algo sólido, palpável, definitivo. Não tardamos a perceber que muitas de nossas conquistas, que apresentamos como certezas, são efêmeras e passageiras, se esvaem deixando sempre um vazio.

     O vazio nos incomoda. Nos deixa um sentimento de insegurança. Evidencia um tempo, que embora não seja, achamos perdido. Não nos dá sinais de novas conquistas a realizar. Sem certezas e seguranças nos sentimos perdidos, sem metas e direções. Não podemos planejar e viver a falácia da construção de um futuro perfeito. A incerteza é uma realidade da vida. Não dominamos o amanhã. Somos reféns da História.

     Mas ao recomeçar percebemos a beleza incólume deste incompreensível cenário. Há um enorme universo de possibilidades com milhares de coisas que não conhecemos. Não enxergamos ainda o quanto isso nos fortalece e nos dá vida. Uma nova vida, repleta de deliciosas incertezas e inseguranças. Basta abandonar os falsos conceitos transitórios e viver a aventura de começar novamente, quantas vezes preciso for.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Caminho das Flechas

     O famoso Caminho de Santiago é uma rota que reedita o percurso traçado pelo Apóstolo Tiago "O maior" pela Europa para a disseminação da palavra Cristã. Como seus restos mortais foram sepultados nesta cidade, durante muitos séculos vários Peregrinos realizaram este percurso para prestar honra ao santo em uma longa jornada de fé. Atualmente é percorrida por pessoas do mundo todo com motivações religiosa, mística, cultural, esportiva e turística.

     No percurso os Peregrinos são guiados por Flechas Amarelas que vão indicando o trajeto a ser seguido para chegar o quanto antes ao destino tão desejado. Como se trata de uma longa caminhada, fatigante e repleta de percalços, quando se sente alguma insegurança quanto a direção certa, tais indicações quase que misteriosamente aparecem e são quase um bálsamo para a alma. Se desenvolve uma quase dependência das mesmas, para não desperdiçar energia em trilhas que apenas nos distanciam do objetivo final.

     A Vida não se diferencia do Caminho, temos que seguir em frente ao encontro de nosso futuro, porém não há evidentes Flechas Amarelas reluzindo o trajeto mais curto. Há sim uma série de sinais não tão evidentes que nem sempre conseguimos enxergar. Através da reflexão e do pensamento livre talvez possamos elucidar alguns destes sinais. Os textos deste Blog em nenhum momento tem a pretensão de ser alguma destas Flechas, são apenas uma tentativa de achá-las e seguir em frente até chegar ao sonhado destino.